eu te carreguei dentro de mim como se fosse possível parir um homem inteiro
anotei em silêncio cada ódio daquela semana enquanto você montava mundos que não saíam do chão
eu escrevia poemas silenciosos só para te ver sorrir uma vez mais sobre algo que em mim já não existia
o amor se tornou uma corda no pescoço que me sufocava com cuidado primeiro como afago e depois aperto
eu puxava o ar devagar com medo de te acordar com medo de te perder sem coragem de dizer que já me perdia
um sono de chumbo me derrubava ao meio-dia o corpo doía sem ferida tuas mãos moles passavam por mim alimentando apenas tua fome
te vi derreter primeiro os contornos depois os olhos por fim o sorriso
até virar algo disforme escorrendo entre meus dedos
e eu ainda te amo como quem ama a faca que gira devagar entre as costelas sem querer que pare
invisível dentro da nossa vida entre a lembrança dos remédios e os papéis recortados no chão sonhos que você dizia em voz alta e esquecia perdidos entre seu despertador sempre atrasado
eu fiquei imóvel porque te perder era pior que me perder
e tu nem notaste que já não havia mais ar neste calor que chamamos de nós