terça-feira, 18 de agosto de 2026

Cartografia poética da auto violência

eu me recuso a ouvir seu nome
tranco as portas do dia
não quero notícias
não quero te ver nunca mais
mas quando durmo
a mente trapaceia;
e resgata o que escondo até de mim...

nas entranhas oníricas
me debruço nua sobre você
busco a textura da pele
a espessura familiar dos pelos sob os meus dedos
procurando o abrigo sufocante do nosso começo

lembro de quando o desejo era simples e denso
a sua ereção pulsando rígida contra o meu corpo
o gosto úmido e quente da boca que eu devorava
a enxurrada viva do meu próprio sexo escorrendo sem pudor
transbordando na cama como se o mundo fosse só aquilo...

eu amava a pressão
o encaixe perfeito
o calor absoluto dos seus toques
amava cada centímetro do seu corpo
antes de tudo apodrecer
antes do afeto virar nojo
antes de cada carícia minha virar mágoa
antes de cada toque virar um peso que me dava náusea

que raiva dessa febre que me habita
desse desejo covarde que não respeita a minha repulsa
odeio a minha própria pele por guardar a memória exata
de como você me preenchia

e na mão esquerda
a ferida me encara;
uma fenda aberta jorrando esse vazio
sem pavor //
só com a urgência brava e amarga
de quem esfrega a pele no escuro até arrancar o excesso
tentando lavar o rastro de tudo o que foi bom
pra que ninguém desconfie
do quanto você ainda me sangra por dentro...

domingo, 16 de agosto de 2026

Tanto tempo e não me conheceu

não vou me gastar te explicando o que sinto
o silêncio guarda o que sobrou
sem a sujeira da palavra dita
existe uma paz fria quando o fim é decretado

eu fechei os olhos pra tanta coisa
projetei teus cabelos brancos no tempo
e aceitei o pouco só pelo pavor de te perder
a raiva seria um alívio
o perverso é a lucidez
saber exatamente quem você é
e ainda assim te querer por inteiro

o corpo ignora a razão
ainda guarda teus beijos no escuro das pálpebras
ainda te caça quando durmo no lado errado da cama

ainda desejo acordar e ver que era só um pesadelo
mas não posso negar a leveza feroz
de te atirar pra longe de mim

eu me apaixonei por uma invenção de minha própria mente
hoje olho pras tuas fotos e só vejo um estranho

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Words Unspoken (to alice)

perdi os meus melhores anos a tentar salvar um homem que já era ruína antes de mim

ele habitava o centro da casa cercado por uma barba que renascia quase à revelia
desmentindo o rosto de menino que se fazia questão de encenar
arrancava de mim qualquer resto de paciência enquanto a mente tecia mentiras em série
sempre à espreita de um culpado para sustentar a própria inércia

vivia preso a um tempo mofado
reprisando os mesmos musicais no sofá
exigindo que a realidade pedisse desculpas por não girar em torno de sua farsa
deixava para trás as xícaras de café frio
deslumbrando suas madrugadas em claro e os olhos trêmulos toda vez que a cobrança vinha
instante em que o corpo desabava em curto-circuitos ensaiados
um teatro de convulsões calculadas para arrancar o pânico da mãe

fazendo o mundo recuar em silêncio
deixando-o livre para voltar a brincar com blocos de montar e papéis espalhados pelo chão
nesse país das maravilhas feito de mentiras
me estilhaçando ao forçar uma disputa sangrenta pela sua atenção
jogando-me contra o relógio do coelho para alimentar o próprio ego
enquanto a alice caía pelo buraco dos espelhos acreditando ter encontrado o paraíso
sem ver que ambas definhavam no mesmo chão falso manipuladas pelo nosso peter pan

quando o vazio mordia
tateava-me na penumbra e penetrava-me como um cão
esquecendo completamente a minha humanidade
esvaziava a própria solidão na carne de quem tanto o amava
sem ver
sem pertencer
apagando todo o resto

demorei-me a entender a teia
o espaço não era dividido apenas com ele
mas com a presença aterrorizada de uma mãe que se recusava a envelhecer
mantendo-o preso à teta
cortando o cordão umbilical de dia para costurá-lo de volta à noite
apavorada com os próprios anos

e ali restou para mim a pior das geometrias
uma triangulação sufocante onde se fazia de vítima para os braços dela(s)
enquanto usava o meu amor como escudo
enquanto eu ficava na sala vazia
com os cacos nos bolsos
vendo-o correr de quatro ao menor arranhão do mundo

entendia tarde demais o preço de sustentar a imaturidade infinita
de quem recusou para sempre a própria coragem de crescer

sábado, 8 de agosto de 2026

Abracei com força o mais puro nada

como explicar ao estômago que a fome é perigosa
fantasma de um órgão arrancado
cobrando o seu lugar no peito
com a boca cheia de ferrugem

o estômago revirado pela metade
o absinto entornado nas vísceras
o nome preso na garganta feito osso de galinha

rastro de pimenta na língua antes de fechar o peito
a falta pesa feito fígado arrancado no soco
a saudade mora no músculo

ninguém mede a coragem de ir embora do que se ama
fechei a porta por sobrevivência
preservando a dor em estado puro

sei das coisas que me fizeram partir
das palavras que ainda doem quando lembro
dos lugares em mim que você destruiu

se procurar por mim agora
não vai encontrar nada do que eu era
ficou só a pele deixada para trás
que ainda tem todas as terminações nervosas

você me destruiu como ninguém...  

(ouvi que se eu não desistir vai passar, que se eu não pensar muito vai sumir, conforme o tempo passa vai sarar, que se eu fechar os olhos não tá mais aqui)