terça-feira, 15 de setembro de 2026

Umami

Eu quero estar pronta, me escorrer por palpitações que não me matariam por pânico, sentir de correntezas que meu coração me escorre e não são lágrimas

Tem pessoas que conectam tão bem que uma fresta da tarde te faz querer ouvir a voz e cantar versos de histórias que leu durante o horário do almoço numa sala gelada em frente ao computador. Há pequenas reações do corpo sonolento, quando a mão percorre o próprio corpo enquanto ainda não se sabe como é sentir o outro, e é engraçado como a curiosidade do tempo foi matada de uma forma não esperada

Nunca se imagina pensar em alguém depois de decidir não ser o momento certo pra nada e se divertir em bobagens de uma plena terça qualquer perambulando curiosos. A mente ainda tão presa por amarras estranhando o novo mundo e o conforto de ser querida depois de implorar tanto pra ser vista e só estar ali existindo em frente a olhos brilhantes

Ainda estranho e me distancio, ando pela distância de palmos e observo o sorriso que dá água na boca. Eu quero saber mais, eu quero falar mais, eu odeio pensar demais o quanto tudo pesa. O quanto eu não quero viver mais alguma coisa feita pra acabar e recomeçar perguntas curiosas pela milésima vez, enquanto queria ser tocada pelas pontas dos dedos e ter as pernas babadas mesmo odiando texturas, cheiros e sensações quais eu não controlo

Há esse gosto denso que fica no fundo da garganta, algo que não é doce e nem salgado, mas preenche a boca e dá vontade de engolir inteiro. O sobressalto no peito que antes me jogaria no chão agora é só o sangue rodando rápido demais, pedindo pra ficar. Eu me retraio no espaço de um suspiro, sinto a pele arrepiar com a própria sombra e continuo ali, suspensa no susto de ver a fome encostar no medo sem me destruir

terça-feira, 8 de setembro de 2026

The best in this kind are but shadows; and the worst are no worse, if imagination amend them

Às vezes, ao acordar, ainda levo alguns segundos para entender para qual teto estou olhando. Quase espero encontrar aquela mancha escura na madeira de novo, o ponto fixo para onde meus olhos flutuavam enquanto descansava minha cabeça contra aquele peito. Mas encontro um teto estranho, e meu corpo se levanta antes que minha mente esteja totalmente presente

Eu simplesmente queria esquecer tudo o que ouvi sobre aquele homem. Todas as coisas que ele tinha feito antes e depois repetiu comigo. Seria menos doloroso acreditar que o tempo apenas moveu tudo para fora do lugar e que o nosso amor morreu da forma como todo fim se encerra

Passando pela mesa, meus pés travam diante da gravata esquecida. O tecido carrega uma costura desfeita, uma antiga promessa de um conserto que nunca vai acontecer. Pegar a agulha não faz sentido nenhum, contudo o gesto de jogá-la fora permanece incompleto. Doar também não é uma opção, pois existe o pavor absoluto de esbarrar com um estranho na rua usando um pedaço daquela história que, no fundo, ainda sinto que pertence a mim

Estava óbvio na forma grotesca de habitar o próprio corpo, no colete mal ajustado que nunca assentava bem, na sombra escura ao redor dos olhos forçando um mistério artificial. Enquanto chorava por perseguições imaginárias, o veneno pingava discretamente do canto da boca

Eu me fiz de cão de guarda, lati para a cidade inteira e coloquei meu próprio corpo entre o crime e o julgamento dos outros. Achei que estava protegendo um homem injustiçado, cega para o fato de que todos o odiavam com razão. Aquele cuidado nunca foi nada além de uma obsessão mecânica para manter a máscara no lugar, o comportamento de alguém incapaz de amar qualquer coisa além do próprio reflexo e do que pudesse extrair tentando salvar sua reputação podre

Meu estômago revira em um espasmo seco com o pensamento do que foi deixado para trás naquela casa, como um livro, uma peça de roupa ou minha dignidade roubada. Tento cuspir de volta cada toque que permiti, cada gota de misericórdia desperdiçada. Eu preferiria osso exposto, carne rasgada no asfalto. A dor física sangra, marca a pele e aceita um curativo, mas essa massa sem forma moendo minhas entranhas por dentro é uma infecção arrastada. É uma náusea que me faz desejar uma amnésia violenta, um golpe na nuca capaz de desfazer tudo, um choque para não ter que carregar esse barulho nem por mais um segundo

A dissociação se completa no meio da sala. Eu daria qualquer coisa para apagar a luz e fechar a conta, implorando para esquecer que, sempre que o chão sumia, era naqueles braços que eu encontrava calma. Amar além de mim mesma significou entregar minha estrutura inteira para a arquitetura de um mentiroso

Com o teto desabado e o vazio me engolindo por completo, o que resta é esse grito silencioso no escuro para paredes que não respondem. Aquele homem levou a melhor parte de mim, arrancou minha capacidade de acreditar no afeto. Agora, qualquer carinho é o prenúncio de uma queda, e a ideia de amar de novo, um pavor sufocante…

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Cartografia poética da auto violência

eu me recuso a ouvir seu nome
tranco as portas do dia
não quero notícias
não quero te ver nunca mais
mas quando durmo
a mente trapaceia;
e resgata o que escondo até de mim...

nas entranhas oníricas
me debruço nua sobre você
busco a textura da pele
a espessura familiar dos pelos sob os meus dedos
procurando o abrigo sufocante do nosso começo

lembro de quando o desejo era simples e denso
a sua ereção pulsando rígida contra o meu corpo
o gosto úmido e quente da boca que eu devorava
a enxurrada viva do meu próprio sexo escorrendo sem pudor
transbordando na cama como se o mundo fosse só aquilo...

eu amava a pressão
o encaixe perfeito
o calor absoluto dos seus toques
amava cada centímetro do seu corpo
antes de tudo apodrecer
antes do afeto virar nojo
antes de cada carícia minha virar mágoa
antes de cada toque virar um peso que me dava náusea

que raiva dessa febre que me habita
desse desejo covarde que não respeita a minha repulsa
odeio a minha própria pele por guardar a memória exata
de como você me preenchia

e na mão esquerda
a ferida me encara;
uma fenda aberta jorrando esse vazio
sem pavor //
só com a urgência brava e amarga
de quem esfrega a pele no escuro até arrancar o excesso
tentando lavar o rastro de tudo o que foi bom
pra que ninguém desconfie
do quanto você ainda me sangra por dentro...

domingo, 16 de agosto de 2026

Tanto tempo e não me conheceu

não vou me gastar te explicando o que sinto
o silêncio guarda o que sobrou
sem a sujeira da palavra dita
existe uma paz fria quando o fim é decretado

eu fechei os olhos pra tanta coisa
projetei teus cabelos brancos no tempo
e aceitei o pouco só pelo pavor de te perder
a raiva seria um alívio
o perverso é a lucidez
saber exatamente quem você é
e ainda assim te querer por inteiro

o corpo ignora a razão
ainda guarda teus beijos no escuro das pálpebras
ainda te caça quando durmo no lado errado da cama

ainda desejo acordar e ver que era só um pesadelo
mas não posso negar a leveza feroz
de te atirar pra longe de mim

eu me apaixonei por uma invenção de minha própria mente
hoje olho pras tuas fotos e só vejo um estranho

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Words Unspoken (to alice)

perdi os meus melhores anos a tentar salvar um homem que já era ruína antes de mim

ele habitava o centro da casa cercado por uma barba que renascia quase à revelia
desmentindo o rosto de menino que se fazia questão de encenar
arrancava de mim qualquer resto de paciência enquanto a mente tecia mentiras em série
sempre à espreita de um culpado para sustentar a própria inércia

vivia preso a um tempo mofado
reprisando os mesmos musicais no sofá
exigindo que a realidade pedisse desculpas por não girar em torno de sua farsa
deixava para trás as xícaras de café frio
deslumbrando suas madrugadas em claro e os olhos trêmulos toda vez que a cobrança vinha
instante em que o corpo desabava em curto-circuitos ensaiados
um teatro de convulsões calculadas para arrancar o pânico da mãe

fazendo o mundo recuar em silêncio
deixando-o livre para voltar a brincar com blocos de montar e papéis espalhados pelo chão
nesse país das maravilhas feito de mentiras
me estilhaçando ao forçar uma disputa sangrenta pela sua atenção
jogando-me contra o relógio do coelho para alimentar o próprio ego
enquanto a alice caía pelo buraco dos espelhos acreditando ter encontrado o paraíso
sem ver que ambas definhavam no mesmo chão falso manipuladas pelo nosso peter pan

quando o vazio mordia
tateava-me na penumbra e penetrava-me como um cão
esquecendo completamente a minha humanidade
esvaziava a própria solidão na carne de quem tanto o amava
sem ver
sem pertencer
apagando todo o resto

demorei-me a entender a teia
o espaço não era dividido apenas com ele
mas com a presença aterrorizada de uma mãe que se recusava a envelhecer
mantendo-o preso à teta
cortando o cordão umbilical de dia para costurá-lo de volta à noite
apavorada com os próprios anos

e ali restou para mim a pior das geometrias
uma triangulação sufocante onde se fazia de vítima para os braços dela(s)
enquanto usava o meu amor como escudo
enquanto eu ficava na sala vazia
com os cacos nos bolsos
vendo-o correr de quatro ao menor arranhão do mundo

entendia tarde demais o preço de sustentar a imaturidade infinita
de quem recusou para sempre a própria coragem de crescer

sábado, 8 de agosto de 2026

Abracei com força o mais puro nada

como explicar ao estômago que a fome é perigosa
fantasma de um órgão arrancado
cobrando o seu lugar no peito
com a boca cheia de ferrugem

o estômago revirado pela metade
o absinto entornado nas vísceras
o nome preso na garganta feito osso de galinha

rastro de pimenta na língua antes de fechar o peito
a falta pesa feito fígado arrancado no soco
a saudade mora no músculo

ninguém mede a coragem de ir embora do que se ama
fechei a porta por sobrevivência
preservando a dor em estado puro

sei das coisas que me fizeram partir
das palavras que ainda doem quando lembro
dos lugares em mim que você destruiu

se procurar por mim agora
não vai encontrar nada do que eu era
ficou só a pele deixada para trás
que ainda tem todas as terminações nervosas

você me destruiu como ninguém...  

(ouvi que se eu não desistir vai passar, que se eu não pensar muito vai sumir, conforme o tempo passa vai sarar, que se eu fechar os olhos não tá mais aqui) 

domingo, 26 de julho de 2026

Quanto se sangra em um domingo?

Faço os mesmos gestos mecânicos todos os dias.
Relendo os mesmos livros, o quadro trocado de parede, o corpo jogado na cama na hora exata, esperando que o cansaço tome o lugar da dor. Mas nada muda. Eu arranco tudo de mim, eu crio, eu amo, eu desejo até a boca salivar de fome, para no segundo seguinte me encarar por dentro e ver que continuo seca 

Eu lembro de olhos, de todos os olhos e os olhares que me prenderam e me perderam, de todas as vezes que as coisas escorregaram pelas minhas mãos e do quanto minha intensidade me faz querer jogar tudo fora, me desfazendo de cada sentimento como se eu nunca tivesse sentido nada

E o outro nunca sou eu.
Por mais que eu me abra, que eu tente me encostar ou decifrar, o outro continua sendo um idioma que eu não falo e que não deveria nem tentar aprender. Fico desnutrida de gente, definhando por migalhas de um afeto que para os outros é natural, enquanto para mim é uma matemática impossível. É um nó na cabeça tentar entender como as pessoas funcionam, como se movem tão fáceis pelo mundo sem essa fome que me desgasta. E nessa busca cega por algo que faça sentido, passo as horas reorganizando meus pensamentos, revirando cada gaveta da memória, só para me me ver ainda mais perdida no meio do meu próprio caos

E quanto mais eu tento organizar a minha cabeça procurando uma lógica pra isso tudo, mais me perco no meio do caminho. É uma exaustão mental tentar entender como os outros funcionam, como conseguem se mover com tanta leveza pelo mundo enquanto eu fico presa nessa tentativa absurda de decifrar o que não tem tradução. O outro é um território fechado. Não tem resposta, não tem ponte, não tem sentido nenhum escondido no final pra eu encontrar. É só esse pensamento sobre pensamento, um cansaço que não leva a lugar nenhum

Fico dando voltas no mesmo lugar, remontando cenários, tentando achar o momento exato em que a lógica se perdeu, como se existisse uma fórmula secreta pra entender a engrenagem das pessoas. Mas é um labirinto sem saída. Quanto mais eu tento arrumar essa bagunça e dar um nome pra essa sensação, mais o chão foge debaixo do meu pé

Não tem conclusão, não tem um grande estalo de clareza.
Fica só esse zumbido incansável por dentro, essa ginástica inútil de reorganizar ideias que não se encaixam, enquanto os outros continuam passando por mim sem nem desconfiar do nó que eu tô tentando desfazer