quarta-feira, 15 de abril de 2026

I used to know how to please you

Te amasso, te desmonto e te deságuo
numa colisão de nervos que não aceita trégua

Absoluto, canino e orbital
onde o desejo não pede licença e habita o osso

Quero a febre que lateja sob a carne
um eclipse que me eriça os poros e me embaça os horizontes

Quero teu nome entalado na minha garganta ao beber o suor de tua nuca

Vertebral, busco o desenho de teu encaixe em minhas costas
enquanto sou rio entre nossos relevos

Quero escorrer em tua língua como veneno e orvalho
abrindo devagar cada costura de minha pele
A obsessão que se molda à curvatura dos teus dedos enquanto te desabotoo

Me alimentar de teu gosto até que ele se instale em meu céu
Sem tempo e medo, onde a calma nos engole inteiros
Eu quero te pedir mais…

quinta-feira, 9 de abril de 2026

You made me hate this city

Dizem que para esquecer um rosto é preciso caminhar até que os pés sangrem e a pele mude
Eu caminhei;; 

Atravessei avenidas que parecem veias entupidas de fumaça
mas a cada esquina, o solo cospe um dente seu
uma lembrança afiada que corta o meu sapato 

As luzes de mercúrio não iluminam onde o concreto tem memória
A cidade é um lençol sujo que eu insisto em esticar sobre o corpo de desconhecidos
Deitei-me em camas estranhas e cultivei afetos rápidos 

Mas a minha mão está contaminada
Onde eu toco, o outro se transforma em você
E todo rosto é como uma fotografia mal revelada
a imagem derrete até que os traços sejam os seus.... 

Eu ando por ruas que são gargantas secas
tentando engolir o que sobrou do dia
mas o asfalto é um espelho quebrado que reflete mil vezes a minha queda 

Eu troco de bairro como quem troca de pele
mas o sangue que corre sob os viadutos é o mesmo que eu vi 
estancado naquele último adeus// 

Esta cidade é um quarto sem janelas
Apenas uma ferida aberta e eu ao menos moro aqui... 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Schadenfreude

A dor da perda é a única emoção que não se turva
Como um fantasma que ainda habita o que já deixou de ser

E na raiz que me prende ao lado de dentro onde o ar é mais denso e as cores são de verdade
Você ainda existiria em outro tempo se o silencio não tivesse nos devorado?

Olho para as minhas mãos, elas têm o desenho exato da sua ausência
Carregando lascas um do outro sob as unhas
Como quem mastiga sangue velho no canto da boca

Num vício de buscar o antídoto no próprio veneno
Pedindo remendo para quem segura a tesoura...
Cavando o peito pra te encontrar