sexta-feira, 11 de abril de 2025

Me pede pra partir

Te deixei no mesmo lugar onde guardei os fósforos molhados, os poemas que terminavam antes do tempo e aquela camisa cinza que ninguém mais reconheceria como sua

Não sei mais o que é contar as coisas em voz alta, desde então, aprendi a escrever como quem fecha portas devagar. Ninguém entende, mas tudo continua no mesmo lugar

Todo mundo gosta de fingir que fui salva, mas ainda hoje, quando me visto às pressas… evito o espelho do corredor. Ele sabe demais…

Se um dia cruzar com meu corpo por ai e achar algo fora do lugar, me desculpe. É que carrego nos bolsos coisas que só você saberia onde deixar

Às vezes ainda escrevo frases com sua cadência. Palavras que não fazem sentido algum pra mais ninguém… exceto pra você…

Te escrevo em tudo que não pode ser lido. Nos rascunhos que não salvo, nos cadernos que escondo atrás dos livros que você me deu, nos pensamentos que corto pela metade pra ninguém perceber a falta

Porque tem teu cheiro dentro da xícara que ninguém mais usa

Te escondi em cada canto que ninguém procura, no bolso dentro do meu casaco marrom que você tanto gostava, na dobra da toalha manchada de quando eu trocava sempre a cor do cabelo e naquela música que eu finjo não saber a letra de cor mas ainda canto por dentro toda vez que o mundo me esquece…

Tem dia que amanheço com tua voz dizendo “volta” ou talvez “fui”. Já não sei se é lembrança ou invenção…

Mas ainda sangra…

Às vezes penso que te guardei como quem engole um vidro, pra ninguém ver… e pra doer pra sempre.

Never coming home

Há lugares em mim onde teu cheiro ainda dorme.
Não importa quantas janelas eu abra, o ar ainda sabe teu nome

Não houve som quando você desabou.
Eles esquecem quantas vezes protegi teu nome por amor, enquanto eu fingia conseguir te salvar

O tempo parou, que nem aquele seu relógio soviético velho. O peito ainda guarda, remendado enquanto luta para esquecer mesmo quando sua presença me desmancha os ossos… um por um

Teu nome ainda escorre quando não vigio.
Teus olhos ainda piscam nos espelhos rachados, e eu sigo, como quem se arrasta pra longe da própria sombra

Teu corpo sempre foi um enigma, e tu insistias em achar que eu tinha as respostas. Teu amor era uma porta entreaberta tão convidativa

Você ainda mora na parte de mim que ninguém toca.
e às vezes, quando a noite abre um buraco no teto, eu deito ali e escuto tua voz sem som dizendo coisas que você nunca teve coragem

E mesmo assim te preparei moradas nos espaços mais íntimos da minha pele, orgulho costurado com linha frouxa pra sempre ter um pouco de ti…

Às vezes penso que morrer de amor teria sido menos cruel do que sobreviver a ele

Tornei-me ruína de um templo que ninguém visita, talvez essa seja minha sina…