terça-feira, 17 de junho de 2025

We can stay here forever

Teu cheiro de cigarro ainda me gruda a pele
Como o gosto morno do café que tua boca deixava nas minhas coxas frias
Famintas, que aceitavam seu inferno só pra debruçar no seu calor

Ainda sussurrando em silêncio os significados dos desenhos do teu corpo
Como se ainda fosse, um mapa de volta pra mim

Eu te esconderia sob meu colchão velho
Junto às cartas inacabadas que só sabiam falar de ti
Só eu ouvia tuas lágrimas na torre que erguiste em silêncio
Dentro do teu castelo de areia, que sempre desmoronava em mim…

Eu te amei.
De mim, para ti e contigo…
E mesmo assim, tua ausência grita em mim mais alto que qualquer presença

Teu nome ainda ressoa nas rachaduras das lembranças que insistem em voltar
Mesmo quando minha mente esquece todas as vezes em que tua boca
Profanou a inocência do amor

Mas tu eras o tornado… E eu, o corpo arrancado do chão
Atirado sempre de volta à tua estrada de tijolos amarelos
Pois eu confiei… com a inocência de quem não conhecia o gosto da culpa

E tudo o que eu queria era que tu, um dia, quisesse a minha paz
Meus pés sangram…
E tu, mais que ninguém, sabe bem que viver na própria pele é um tormento que não cicatriza

domingo, 1 de junho de 2025

Limiar-de-nós

Às vezes, alguma coisa se move torta no fundo dos olhos
Como um instante disforme
Como se o tempo deslizasse de lado e as memórias escorressem pelas frestas

O corpo lembra primeiro
Não o corpo deles, o meu
As costelas retraem como se esperassem um nome
Mas tudo se turva quase como o chiar de uma tv velha tentando uma imagem mais nítida
É um quase…
Quase a dobra da blusa que ele usava
Quase o gesto distraído dele arrumando o cabelo entre a orelha e o óculos
Quase o peso que ficou entre os dentes depois da ausência

Enquanto tentava pronunciar o nome dele a tempo…
E o coração lateja como um cão faminto diante de um osso falso
Há pessoas que não partem, elas se fragmentam dentro da gente
E voltam em formas estranhas...

Atravessam a rua com outra roupa, outro cheiro, outro tempo
Mas ainda assim doem do mesmo jeito...
Como se cada rosto que não fosse o dele, fosse seu reflexo partindo outra vez
Porque a ausência é especialista em fantasmagorias
Ela sabe usar o tempo contra nós...

Às vezes, o que a gente vê é só eco
Como o ponteiro parado no relógio
Os fios que surgem brancos em meu couro cabeludo me mostram que todas as idades que tenho
Ele também um dia também já teve, e que tudo que não é ele… ainda permanece no canto do olho…

Caindo sem fazer barulho

As coisas continuam.
As pessoas falam…
O mundo gira...
Mas tem algo que não sai do lugar…

Eu carrego feridas abertas
Palavras presas na garganta
Elas não me pertencem, mas não me deixam ir...

Então eu fico aqui, tentando ser tudo e nada
Esperando que um dia me vejam de verdade
Não o que eu finjo ser
Mas o que eu sou quando ninguém está olhando...

Tem dias que é fácil fingir…
Tem dias que nem tentando…
E mesmo assim, sorrio.
Como se soubesse como faz…

E mesmo que ninguém saiba
Tem um quarto dentro do peito bagunçado, silencioso… vivo...
Não acontece nada
Só esse silêncio de depois
Mesmo quando não houve antes...

As coisas seguem
As pessoas sorriem
E ainda assim, tudo parece depois demais...

Há um lugar onde eu ainda espero
Sem saber o quê, sem querer que chegue…

Mas fico...
E ninguém vê...
Ninguém nunca vê...

Só eu, por dentro, me ouvindo cair…
Baixo demais pra fazer barulho…