domingo, 26 de julho de 2026

Quanto se sangra em um domingo?

Faço os mesmos gestos mecânicos todos os dias.
Relendo os mesmos livros, o quadro trocado de parede, o corpo jogado na cama na hora exata, esperando que o cansaço tome o lugar da dor. Mas nada muda. Eu arranco tudo de mim, eu crio, eu amo, eu desejo até a boca salivar de fome, para no segundo seguinte me encarar por dentro e ver que continuo seca 

Eu lembro de olhos, de todos os olhos e os olhares que me prenderam e me perderam, de todas as vezes que as coisas escorregaram pelas minhas mãos e do quanto minha intensidade me faz querer jogar tudo fora, me desfazendo de cada sentimento como se eu nunca tivesse sentido nada

E o outro nunca sou eu.
Por mais que eu me abra, que eu tente me encostar ou decifrar, o outro continua sendo um idioma que eu não falo e que não deveria nem tentar aprender. Fico desnutrida de gente, definhando por migalhas de um afeto que para os outros é natural, enquanto para mim é uma matemática impossível. É um nó na cabeça tentar entender como as pessoas funcionam, como se movem tão fáceis pelo mundo sem essa fome que me desgasta. E nessa busca cega por algo que faça sentido, passo as horas reorganizando meus pensamentos, revirando cada gaveta da memória, só para me me ver ainda mais perdida no meio do meu próprio caos

E quanto mais eu tento organizar a minha cabeça procurando uma lógica pra isso tudo, mais me perco no meio do caminho. É uma exaustão mental tentar entender como os outros funcionam, como conseguem se mover com tanta leveza pelo mundo enquanto eu fico presa nessa tentativa absurda de decifrar o que não tem tradução. O outro é um território fechado. Não tem resposta, não tem ponte, não tem sentido nenhum escondido no final pra eu encontrar. É só esse pensamento sobre pensamento, um cansaço que não leva a lugar nenhum

Fico dando voltas no mesmo lugar, remontando cenários, tentando achar o momento exato em que a lógica se perdeu, como se existisse uma fórmula secreta pra entender a engrenagem das pessoas. Mas é um labirinto sem saída. Quanto mais eu tento arrumar essa bagunça e dar um nome pra essa sensação, mais o chão foge debaixo do meu pé

Não tem conclusão, não tem um grande estalo de clareza.
Fica só esse zumbido incansável por dentro, essa ginástica inútil de reorganizar ideias que não se encaixam, enquanto os outros continuam passando por mim sem nem desconfiar do nó que eu tô tentando desfazer

terça-feira, 21 de julho de 2026

O plano físico exige uma estrutura que a imaginação simplesmente ignora

há criaturas que se apaixonam pelo homem;
outras, mais desafortunadas, apaixonam-se pelo intervalo entre aquilo que um homem é e aquilo que, por alguns instantes de prodigalidade verbal, parece capaz de ser

sou sonhadora por ofício, quero a rotina do indomável;
as borboletas, o delírio, a pupila dilatada pelo reconhecimento absurdo de uma outra criatura no meio da multidão, quero o amor à primeira vista e, sobretudo, o inconveniente de continuar amando depois que a vista se acostuma

talvez seja uma exigência indecorosa
talvez seja apenas uma forma sofisticada de estupidez
talvez apenas duas formas distintas de covardia encontrando-se no mesmo lugar
é curioso como há intensidades que gostam de incendiar catedrais com fósforos de bolso

as palavras chegavam belas pelas ondas curtas do rádio;
havia qualquer coisa de obscenamente promissor naquela voz jovem, naquela inteligência ainda não domesticada pelo fracasso, naquela maneira de falar como quem desconhece a distância entre desejar uma coisa e ser capaz de suportá-la quando finalmente a possui

a mesma hybris... a mesma fome de absoluto, mas tudo era fresco… raso…
fenomenicamente insuficiente para sustentar o abismo que, por alguma patologia do espírito, já se insinuava.

o começo e o fim quase coincidem;
nenhum cadáver digno de luto, nenhuma ruína suficientemente concreta para justificar tamanha melancolia… há nisso uma espécie particular de crueldade… porque o que não aconteceu não pode ser desmentido pela memória

domingo, 19 de julho de 2026

A química que a gente sente quando sabe que não pode ficar junto

há em mim um impulso quase litúrgico de salvaguardar tudo… como quem conserva uma chama dentro das mãos até que a própria pele aprenda a cheirar queimado

talvez eu ainda acredite que sobreviver ao martírio me torne digna de um amor igualmente devoto
quero a verdade em sua nudez mais crua… cravada numa cruz de ossos… batizada pelas lágrimas que só o meu exílio sabe nomear

eu te amarraria numa gravata verde apenas para sussurrar, com a boca colada ao impossível, que pisaria no mais absoluto breu sem cordas, sem olhos, perseguindo as fagulhas de uma expectativa de ver da mesma chama e desespero qual fui moldada

blasfêmia; eu te ambiciono com uma fome que me escava por dentro// o destino foi econômico até na crueldade

não nos deu a carne… não nos deu o rosto… não nos deu a memória de um toque para que eu pudesse odiá-lo depois

deixou apenas o desejo e isso é pior…
minhas expectativas cresceram em silêncio, alimentando-se de tudo aquilo que nunca aconteceu…
então volto a te sepultar; não a ti, à possibilidade de ti…
dentro de uma caixa hermética onde guardo todas as vidas que jamais terão o direito de nascer; amém

Too long sacrificed my feelings to the ones who take all 'till there's nothing in the end

dizem que o final sempre esteve nos erros do início, emaranhado no nosso alicerce como raiz podre que não larga a terra
eu tento recuperar minha face, minhas veias emboladas e apagando tudo que ainda carregue um pedaço teu
eu te apagaria à força se pudesse; sonhando todo santo dia que nunca tivesse te conhecido

queimaria tuas rosas… prego a prego… colocaria ferro nas minhas portas para que nunca mais entrasses, nunca mais proferisses aquelas palavras doces saídas da tua língua áspera e venenosa

fingindo inocência com a solidão que sempre te mereceu, adormecido no ninho da víbora da tua mãe, que te colocaria de volta no útero se o mundo permitisse
e eu, eu te cuidei como se fosse do meu próprio ventre… te protegendo com as unhas e dentes de um teratoma

enquanto você me degolava devagar para que minha cabeça fosse teu troféu, exposto na solidão que você tanto cultiva para se vitimizar

Unheimlich

eu repito o mesmo gesto como quem lambe a ferida para sentir o gosto do sangue fresco
busco conexões que me rasguem as entranhas, além do gozo, onde a dor vira alimento quente
uma intensidade que lateja no osso…
quero segurar o que não tem raiz, nem semente, nem promessa de chão
tento prender no dente o latão banhado, o brilho falso que me queima a boca enquanto os desejos me afogam os sonhos em ondas grossas e mornas
eu me apego fácil como mosca no mel estragado, vejo no teu olhar o reflexo perfeito da minha própria utopia quebrada e da solidão que me veste por dentro… fico presa nessa inconsistência…
no que eu poderia simplesmente não me importar // mas importo // demais, sempre demais; e repito e repito… até o padrão virar pele e a pele virar jaula