Às vezes, ao acordar, ainda levo alguns segundos para entender para qual teto estou olhando. Quase espero encontrar aquela mancha escura na madeira de novo, o ponto fixo para onde meus olhos flutuavam enquanto descansava minha cabeça contra aquele peito. Mas encontro um teto estranho, e meu corpo se levanta antes que minha mente esteja totalmente presente
Eu simplesmente queria esquecer tudo o que ouvi sobre aquele homem. Todas as coisas que ele tinha feito antes e depois repetiu comigo. Seria menos doloroso acreditar que o tempo apenas moveu tudo para fora do lugar e que o nosso amor morreu da forma como todo fim se encerra
Passando pela mesa, meus pés travam diante da gravata esquecida. O tecido carrega uma costura desfeita, uma antiga promessa de um conserto que nunca vai acontecer. Pegar a agulha não faz sentido nenhum, contudo o gesto de jogá-la fora permanece incompleto. Doar também não é uma opção, pois existe o pavor absoluto de esbarrar com um estranho na rua usando um pedaço daquela história que, no fundo, ainda sinto que pertence a mim
Estava óbvio na forma grotesca de habitar o próprio corpo, no colete mal ajustado que nunca assentava bem, na sombra escura ao redor dos olhos forçando um mistério artificial. Enquanto chorava por perseguições imaginárias, o veneno pingava discretamente do canto da boca
Eu me fiz de cão de guarda, lati para a cidade inteira e coloquei meu próprio corpo entre o crime e o julgamento dos outros. Achei que estava protegendo um homem injustiçado, cega para o fato de que todos o odiavam com razão. Aquele cuidado nunca foi nada além de uma obsessão mecânica para manter a máscara no lugar, o comportamento de alguém incapaz de amar qualquer coisa além do próprio reflexo e do que pudesse extrair tentando salvar sua reputação podre
Meu estômago revira em um espasmo seco com o pensamento do que foi deixado para trás naquela casa, como um livro, uma peça de roupa ou minha dignidade roubada. Tento cuspir de volta cada toque que permiti, cada gota de misericórdia desperdiçada. Eu preferiria osso exposto, carne rasgada no asfalto. A dor física sangra, marca a pele e aceita um curativo, mas essa massa sem forma moendo minhas entranhas por dentro é uma infecção arrastada. É uma náusea que me faz desejar uma amnésia violenta, um golpe na nuca capaz de desfazer tudo, um choque para não ter que carregar esse barulho nem por mais um segundo
A dissociação se completa no meio da sala. Eu daria qualquer coisa para apagar a luz e fechar a conta, implorando para esquecer que, sempre que o chão sumia, era naqueles braços que eu encontrava calma. Amar além de mim mesma significou entregar minha estrutura inteira para a arquitetura de um mentiroso
Com o teto desabado e o vazio me engolindo por completo, o que resta é esse grito silencioso no escuro para paredes que não respondem. Aquele homem levou a melhor parte de mim, arrancou minha capacidade de acreditar no afeto. Agora, qualquer carinho é o prenúncio de uma queda, e a ideia de amar de novo, um pavor sufocante…
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