quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Crawling in my skin these wounds, they will not heal

Te escrevo para que minhas palavras já desgastadas pela minha fala repetida, possam sair desse emaranhado em minha garganta, soltando um pouco desse nó sem soltar demais e te desamarrar de mim… para te encontrar aqui, quem sabe algum dia qual lembre que é onde me abrigo quando dói.

Eu queria rasgar cada página que me confundem as palavras, mas essas folhas vivem amassadas em meu peito. E essa dor é o interlúdio dissonante, sempre presente nos intervalos, mesmo quando o palco deveria ser só nosso. 

E ela, você sabe bem, continua lá em cada canto onde meus olhos não podem ver, mesmo de rabo de olho. E eu fico parada, na beira dessa espera, na esperança de que um dia você perceba que esse abismo cresce toda vez que você finge que não vê o quanto se embrenha como erva daninha.

Minha repetição é como uma música que já me desgastou, mas mesmo cansada sou obrigada a escutar inúmeras vezes e mesmo que a letra eu saiba de cor, nunca é prazeroso cantar. Nisso claro, não falo sobre o amor, falo inteiramente sobre esse buraco que estou tentando remendar em meu peito.

E se eu pudesse te dizer, entre pausas, que você se tornou um labirinto. Cada palavra mal interpretada é como me distanciar mais e mais do teu encontro. E tudo que mais temo é ter construído essa prisão com minhas próprias mãos, pelo simples medo de te perder novamente.

Te peço, sem pedir, que desvende as palavras que sou eu dentro de tudo que me nego dizer enquanto te abro minhas cicatrizes.  Você entende isso? Que não sou o descontrole, que não sou desespero, a calma não é um botão que se aperta.

O que queria, na verdade, é um refúgio. Um lugar onde a minha angústia não precise gritar para ser ouvida, onde eu possa deixar meus medos guardados no bolso e falar de amor como quem fala de um café quente, de manhãs nubladas, sem expectativa, sem receio e ser apenas tudo que sempre fui ao seu lado, antes de ter essa mancha em meu campo de visão com seus cabelos laranjas.

Queria te contar das noites insones, dos diálogos que construo sozinha, do medo de imaginar o que você diria se eu deixasse todas as vozes em minha cabeça escaparem.

E no momento não consigo ser leve, não posso interpretar minha própria vida como se o agora fosse como antes. E me pego com medo que cada palavra que saia por minha boca seja somente mais um tijolo entre nós… se tudo o que sinto pesa como rochas, rochas não voariam como pássaros mesmo se tivessem asas…

E em mais uma madrugada me pego esperando que o dia amanheça claro o suficiente para você ver que é dentro de mim que a tempestade se forma.


Eu, só, com o corpo vazio de respostas e cheio de perguntas que não ouso fazer. Você ouve? O eco sou eu, tentando te alcançar, enquanto não posso mais gritar para ser socorrida.

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