Te deixei no mesmo lugar onde guardei os fósforos molhados, os poemas que terminavam antes do tempo e aquela camisa cinza que ninguém mais reconheceria como sua
Não sei mais o que é contar as coisas em voz alta, desde então, aprendi a escrever como quem fecha portas devagar. Ninguém entende, mas tudo continua no mesmo lugar
Todo mundo gosta de fingir que fui salva, mas ainda hoje, quando me visto às pressas… evito o espelho do corredor. Ele sabe demais…
Se um dia cruzar com meu corpo por ai e achar algo fora do lugar, me desculpe. É que carrego nos bolsos coisas que só você saberia onde deixar
Às vezes ainda escrevo frases com sua cadência. Palavras que não fazem sentido algum pra mais ninguém… exceto pra você…
Te escrevo em tudo que não pode ser lido. Nos rascunhos que não salvo, nos cadernos que escondo atrás dos livros que você me deu, nos pensamentos que corto pela metade pra ninguém perceber a falta
Porque tem teu cheiro dentro da xícara que ninguém mais usa
Te escondi em cada canto que ninguém procura, no bolso dentro do meu casaco marrom que você tanto gostava, na dobra da toalha manchada de quando eu trocava sempre a cor do cabelo e naquela música que eu finjo não saber a letra de cor mas ainda canto por dentro toda vez que o mundo me esquece…
Tem dia que amanheço com tua voz dizendo “volta” ou talvez “fui”. Já não sei se é lembrança ou invenção…
Mas ainda sangra…
Às vezes penso que te guardei como quem engole um vidro, pra ninguém ver… e pra doer pra sempre.
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