domingo, 1 de junho de 2025

Limiar-de-nós

Às vezes, alguma coisa se move torta no fundo dos olhos
Como um instante disforme
Como se o tempo deslizasse de lado e as memórias escorressem pelas frestas

O corpo lembra primeiro
Não o corpo deles, o meu
As costelas retraem como se esperassem um nome
Mas tudo se turva quase como o chiar de uma tv velha tentando uma imagem mais nítida
É um quase…
Quase a dobra da blusa que ele usava
Quase o gesto distraído dele arrumando o cabelo entre a orelha e o óculos
Quase o peso que ficou entre os dentes depois da ausência

Enquanto tentava pronunciar o nome dele a tempo…
E o coração lateja como um cão faminto diante de um osso falso
Há pessoas que não partem, elas se fragmentam dentro da gente
E voltam em formas estranhas...

Atravessam a rua com outra roupa, outro cheiro, outro tempo
Mas ainda assim doem do mesmo jeito...
Como se cada rosto que não fosse o dele, fosse seu reflexo partindo outra vez
Porque a ausência é especialista em fantasmagorias
Ela sabe usar o tempo contra nós...

Às vezes, o que a gente vê é só eco
Como o ponteiro parado no relógio
Os fios que surgem brancos em meu couro cabeludo me mostram que todas as idades que tenho
Ele também um dia também já teve, e que tudo que não é ele… ainda permanece no canto do olho…

Nenhum comentário:

Postar um comentário