há criaturas que se apaixonam pelo homem;
outras, mais desafortunadas, apaixonam-se pelo intervalo entre aquilo que um homem é e aquilo que, por alguns instantes de prodigalidade verbal, parece capaz de ser
sou sonhadora por ofício, quero a rotina do indomável;
as borboletas, o delírio, a pupila dilatada pelo reconhecimento absurdo de uma outra criatura no meio da multidão, quero o amor à primeira vista e, sobretudo, o inconveniente de continuar amando depois que a vista se acostuma
talvez seja uma exigência indecorosa
talvez seja apenas uma forma sofisticada de estupidez
talvez apenas duas formas distintas de covardia encontrando-se no mesmo lugar
é curioso como há intensidades que gostam de incendiar catedrais com fósforos de bolso
as palavras chegavam belas pelas ondas curtas do rádio;
havia qualquer coisa de obscenamente promissor naquela voz jovem, naquela inteligência ainda não domesticada pelo fracasso, naquela maneira de falar como quem desconhece a distância entre desejar uma coisa e ser capaz de suportá-la quando finalmente a possui
a mesma hybris... a mesma fome de absoluto, mas tudo era fresco… raso…
fenomenicamente insuficiente para sustentar o abismo que, por alguma patologia do espírito, já se insinuava.
o começo e o fim quase coincidem;
nenhum cadáver digno de luto, nenhuma ruína suficientemente concreta para justificar tamanha melancolia… há nisso uma espécie particular de crueldade… porque o que não aconteceu não pode ser desmentido pela memória
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