quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Words Unspoken (to alice)

perdi os meus melhores anos a tentar salvar um homem que já era ruína antes de mim

ele habitava o centro da casa cercado por uma barba que renascia quase à revelia
desmentindo o rosto de menino que se fazia questão de encenar
arrancava de mim qualquer resto de paciência enquanto a mente tecia mentiras em série
sempre à espreita de um culpado para sustentar a própria inércia

vivia preso a um tempo mofado
reprisando os mesmos musicais no sofá
exigindo que a realidade pedisse desculpas por não girar em torno de sua farsa
deixava para trás as xícaras de café frio
deslumbrando suas madrugadas em claro e os olhos trêmulos toda vez que a cobrança vinha
instante em que o corpo desabava em curto-circuitos ensaiados
um teatro de convulsões calculadas para arrancar o pânico da mãe

fazendo o mundo recuar em silêncio
deixando-o livre para voltar a brincar com blocos de montar e papéis espalhados pelo chão
nesse país das maravilhas feito de mentiras
me estilhaçando ao forçar uma disputa sangrenta pela sua atenção
jogando-me contra o relógio do coelho para alimentar o próprio ego
enquanto a alice caía pelo buraco dos espelhos acreditando ter encontrado o paraíso
sem ver que ambas definhavam no mesmo chão falso manipuladas pelo nosso peter pan

quando o vazio mordia
tateava-me na penumbra e penetrava-me como um cão
esquecendo completamente a minha humanidade
esvaziava a própria solidão na carne de quem tanto o amava
sem ver
sem pertencer
apagando todo o resto

demorei-me a entender a teia
o espaço não era dividido apenas com ele
mas com a presença aterrorizada de uma mãe que se recusava a envelhecer
mantendo-o preso à teta
cortando o cordão umbilical de dia para costurá-lo de volta à noite
apavorada com os próprios anos

e ali restou para mim a pior das geometrias
uma triangulação sufocante onde se fazia de vítima para os braços dela(s)
enquanto usava o meu amor como escudo
enquanto eu ficava na sala vazia
com os cacos nos bolsos
vendo-o correr de quatro ao menor arranhão do mundo

entendia tarde demais o preço de sustentar a imaturidade infinita
de quem recusou para sempre a própria coragem de crescer

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