Seu rosto remenda minhas paredes engolidas em cicatrizes
E quanto mais me escondo em minhas manias repetitivas
De organizar as folhas dos jornais amarelados da década passada
E seus blocos de montar espalhados pela casa
Quaisquer eram e seriam tuas estrofes preferidas
Eu nunca me deixo me imaginar sem você
Mesmo nas dores que sabotam meu interiço
Sigo, empilhando memórias como tijolos úmidos
Tentando erguer um abrigo que insiste em desabar
E cada porta que fecho é só um gesto inútil contra a infiltração
Tento reafirmar os limites
Arrumando os rastros
Dobrando as mesmas páginas
Colando as mesmas rachaduras
Tentando ordenar um mundo que desmorona
Como se cada gesto de cuidado fosse uma defesa
Contra o que não posso tocar
Mas que insiste em tocar tudo que sou
Me assombrando com sussurros que ninguém mais ouve
Ela vaza pelo rejunte
Invade cada canto, cada fresta
Seus sussurros se misturam aos meus
Uma presença que não deveria existir
E que agora se recusa sair
E mesmo quando fecho os olhos
Ela se enrosca nas frestas da minha retina
Não há portas, nem paredes, nem tijolos
que consigam deter sua sombra crescente
E mesmo quando penso que posso respirar
Seus passos ecoam antes mesmo de chegar
Ela se aperta contra minha garganta
Até que tudo que éramos pareça errado
E me encontro em um labirinto onde só ela se sente em casa
Como se quisesse possuir não só o espaço
Mas o passado e o futuro que não lhe pertencem...
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